A FONTE DA VIRGEM > Bergman Inesgotável

Seg 07 Dez 2015 | 21:30 | Auditório
BERGMAN INESGOTÁVEL > CINEMA À SEGUNDA

Sinopse

Inspirado de certa forma por Rashomon (1950), de Akira Kurosawa – um dos filmes favoritos de Bergman – A Fonte da Virgem foi o filme que valeu um Óscar ao realizador, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Para além do Golden Globe na mesma categoria, o filme teve ainda uma Menção Especial no Festival de Cannes, em 1960. Este é um conto de vingança, passado numa Suécia medieval e protagonizado por Max von Sydow.

Ficha Técnica

Realização Ingmar Bergman

Com Max Von Sydow, Gunnel Lindblom, Birgitta Valberg 

Ano 1960

Data de estreia em Portugal julho de 2015 (versão restaurada)

Parceria Leopardo Filmes

 

Festivais e Prémios

Festival de Cannes 1960 – Menção Especial

Óscares 1961 – Melhor Filme Estrangeiro
Golden Globes 1961 – Melhor Filme Estrangeiro

Informações Adicionais

“Na altura, considerei-o um dos meus melhores filmes. Pensei que era magnífico.”
Ingmar Bergman

“Rezam as crónicas que Bergman deparou com A Filha de Töre em Vänge ainda nos tempos de estudante na Universidade de Estocolmo, que começou por querer transformá-la numa peça de teatro e chegou a ponderar encenar um bailado a partir da lenda medieval. Quando decidiu fazer um filme, convidou Ulla Isakssson (cuja capacidade de recriação histórica na novela sobre os julgamentos de feitiçaria na Suécia, Dit du Icke Vill, aparentemente o impressionara) para escrever o argumento e pediu-lhe uma adaptação directa e simples do original.

A extrema crueza de A Fonte da Virgem vem da balada, como vêm a violência, a vingança e o conflito entre o bem e o mal. Recuando ao tempo da balada, o tempo em que a Suécia progressivamente se rendia ao Catolicismo, mas onde a adoração de outras divindades persistia ainda, Bergman sublinhou a dicotomia paganismo/cristianismo e acrescentou-lhes a necessidade de redenção e a culpa, a tão bergmaniana culpa que em A Fonte da Virgem progressivamente vemos Ingeri, Märeta e Töre assumir, tentando expiar o mal que moveu a violação e assassinato de Karin pelos pastores.

Há a luz e há as trevas. Há os símbolos pagãos e as imagens cristãs. Há duas raparigas, uma a imagem da pureza, a outra da perdição.

Há duas partes no filme, a que vai até ao crime que arranca a vida de Karin na floresta e uma segunda que aí se inicia para seguir a vingança de Töre.
A figura binária está no âmago da estrutura dramática e visual de A Fonte da Virgem, sob a forma de rimas e cenas recorrentes, mesmo se por contraste. Veja-se narrativamente: os conflitos ancestrais (a luta entre o bem e o mal) no contexto de fundo que opõe os cultos (pagão e religioso), conduzem a narrativa por outras dúplices matrizes (sob a forma de oração, o discurso final de Töre, questionando o sentido da existência de Deus ao mesmo tempo que lhe roga misericórdia é exemplar: ‘Viste tudo, a morte da criança inocente e a minha vingança, e tudo permitiste. Não te compreendo. Mas arrependido, peço-te perdão. Não vejo outra maneira de me reconciliar com as minhas mãos. Como penitência do meu pecado consagrar-te-ei uma igreja, construída com cal pelas minhas próprias mãos’). Repare-se formalmente: o canto do galo da sequência inicial ecoa nos cânticos da redentora sequência final. Há duas cenas de ceia, uma ‘pacífica’, ainda a família está junta e reunida à volta da mesa, a outra tensa, juntando à volta da mesa o que resta da família e os algozes que a desfizeram (uns no desconhecimento da identidade dos outros, até que o irmão mais novo dos pastores assassinos reconhece na prece de Töre a de Karin quando com eles partilhara a refeição na floresta, como o vómito dele então explica e os irmãos fazem calar), ambas aludindo explicitamente a imagem da Última Ceia. Como há duas cenas em que se repete, pela maneira como é atenta e silenciosamente filmado, um ritual de preparação: quando a mãe penteia e veste Karin com o vestido de seda bordado por quinze donzelas, antes dela sair de casa para levar velas à Santa Virgem uma sexta-feira, dia de Paixão de Jesus; e quando Töre arrepiantemente se prepara para a cerimónia do abate dos três pastores com a faca dos animais, lavando-se e vestindo-se, a preceito e para a ocasião, tal como acontecera outra ocasião (a outra ocasião que motiva esta) a Karin.”

Maria João Madeira, As Folhas da Cinemateca – Ingmar Bergman, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema 

 

“ (…) a absoluta pureza esculpida do filme, e a sua poderosa narrativa, confirmam A Fonte da Virgem como um dos picos mais altos na carreira
de Bergman.

(…) Von Sydow, fantástico em O Sétimo Selo (1957) e O Rosto (1958), cria um imperioso Töre desde o início. Ele é um patriarca cuja teimosia vai deixá-lo eventualmente desarmado. Como Ingeri, Gunnel Lindbolm encarna uma obscura e sensual ameaça à moralidade cristã, enquanto a mãe de Valberg sofre de forma excruciante na ascética adoração da sua filha, ao mesmo tempo que é a nova e brilhante esperança da sua família e da sua fé. Birgitta Pettersson dá a Karin um traço perigoso de vaidade e de moralismo. Mimada pelos seus pais, ela consegue no entanto transmitir um aterrador pathos durante a cena da violação.

(…) Como provou com O Sétimo Selo, Bergman partilha com os mestres japoneses Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi um talento para evocar o mundo medieval sem espalhafatos ou extravagâncias. Quando Karin retoca o rosto para a viagem, a sua vaidade juvenil assim como a sua roupa histórica são sugeridas por imagens do seu reflexo na água do barril. E quando Töre se senta na mesa, encontra os talheres numa bolsa no seu cinto. Mesmo a forma como a porta é fechada parece autêntica, enquanto muitas composições evocam pinturas religiosas, com a cabeça de Märeta inclinada para um dos lados, como a de Madonna.”

Peter Cowie, Criterion Collection 

Duração do Espectáculo

1H30

Faixa Etária

M/12

Preçário

€4
€3 [< 25, Estudante, > 65, Grupo ≥ 10, Desempregado, Parcerias]
€12 [4 filmes // Ciclo Bergman Inesgotável]
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