BERGMAN INESGOTÁVEL

Seg 12 Out 2015 | 18:30 21:30 | Auditório
REALIZAÇÃO DE INGMAR BERGMAN

Sinopse

Oportunidade única para revisitar as obras de Ingmar Bergman, o mestre do cinema sueco, dias 12 de outubro (18:30 e 21:30) e 7 de dezembro (18:30 e 21:30).

A reposição, a partir do dia 12 de outubro, de quatro dos filmes de Bergman, três deles restaurados: A Força do Sexo Fraco (1964), o primeiro filme a cores de Bergman numa comédia considerada um dos trabalhos mais singulares da carreira do realizador; Luz de Inverno (1963; versão restaurada), neste filme Bergman explora as personagens e a sua relação com Deus; A Flauta Mágica (1975; versão restaurada), venceu no ano seguinte o Prémio BAFTA TV para Melhor Programa Estrangeiro e foi nomeado para os Golden Globes como Melhor Filme Estrangeiro; A Fonte da Virgem (1960; versão restaurada), um dos filmes favoritos de Bergman, foi distinguido com um Óscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Para além do Golden Globe na mesma categoria, o filme teve ainda uma Menção Especial no Festival de Cannes, em 1960. Este é um conto de vingança, passado numa Suécia medieval e protagonizado por Max von Sydow.

Ingmar Bergman, que iniciou a sua carreira como argumentista, notabilizou-se como um dos mais relevantes e influentes cineastas mundiais. Morreu em 2007, na ilha de Fårö (Suécia), local que serviu de cenário a muitos dos seus filmes.

 

SEG 12 OUTUBRO 18H30

A FORÇA DO SEXO FRACO

 

SEG 12 OUTUBRO 21H30

LUZ DE INVERNO

 

SEG 07 DEZEMBRO 18H30

A FLAUTA MÁGICA

 

SEG 07 DEZEMBRO 21H30

A FONTE DA VIRGEM

Informações Adicionais

Em 1960, o realizador Stanley Kubrick, na altura com 31 anos, escreveu uma carta a Ingmar Bergman, dez anos mais velho, para lhe dizer que o considerava “o maior realizador em actividade”. Esta carta encontra-se actualmente na Deutsche Kinemathek – Museum für Film und Fernsehen.

 

O QUE É “FAZER FILMES”?

por Ingmar Bergman

“Fazer filmes”, é para mim uma necessidade natural, uma necessidade comparável à fome e à sede. Para alguns, exprimir-se é escrever livros, subir montanhas, bater nos filhos ou dançar o samba. Eu exprimo-me ao fazer filmes.

Em Sangue de um Poeta, o grande Cocteau mostra-nos o seu alter-ego cambaleante no corredor de um hotel de pesadelo e faz-nos antever por
trás de cada uma das portas cada uma das partes que o compõem, que constituem o seu ‘eu’.

Sem pretender hoje em dia igualar a minha personalidade à de Cocteau, pensei levar-vos numa viagem pelos meus estúdios interiores, onde, invisivelmente, se elaboram os meus filmes. Esta visita, temo que possa desiludir-vos: as instalações estão sempre em desordem porque o proprietário está demasiado ocupado com os seus assuntos para ter tempo de fazer arrumações. Para além disso, a iluminação é bastante má em certos locais, e, à porta de algumas salas, está escrito em letras grandes: ‘PRIVADO’.

Enfim, o próprio guia pergunta-se às vezes o que vale a pena ser mostrado.

De qualquer forma, entreabriremos algumas portas. Não é certo que encontrem justamente respostas precisas às questões que colocam, mas pode ser que, apesar de tudo, consigam juntar algumas peças do complicado puzzle que representa a elaboração de um filme.

De facto, eu sou um ilusionista…

Se virmos o elemento mais fundamental da arte cinematográfica, a película, constatamos que ela
é composta por pequenas imagens rectangulares – 52 por metro – e que cada uma está separada das suas vizinhas por um grande traço negro.
E vendo-a mais de perto, descobrimos que esses mesmos rectângulos, numa primeira abordagem, parecem conter o mesmo motivo, distinguindo- -se uns dos outros apenas por uma modificação quase imperceptível. E quando o mecanismo de alimentação da máquina de projecção faz com
que se sucedam no ecrã as imagens de forma a não nos deixar ver mais do que 1/24 de segundo, temos a ilusão do movimento.

Entre cada um destes pequenos rectângulos o obturador passa à frente da lente e mergulha-nos na obscuridade completa, para nos trazer a plena luz com o rectângulo seguinte. Quando tinha 10 anos e manuseava a minha primeira lanterna – com a sua chaminé, a sua lâmpada a petróleo
e os filmes indefinidamente repetidos – achava
o fenómeno cheio de mistério e excitação. Ainda hoje, sinto passar em mim um daqueles tremores da minha infância quando penso que na realidade faço ilusionismo, porque o cinema não existe senão graças a uma imperfeição do olho humano, a sua inaptidão para perceber separadamente
as imagens que se seguem rapidamente e que, essencialmente, são parecidas.

(…) O que é ‘rodar um filme’?

O que é então ‘rodar um filme’? Se vos colocasse esta questão, obteria sem dúvida respostas bastante diferentes, mas talvez concordassem num ponto: rodar um filme é fazer aquilo que é necessário para transportar o conteúdo de um manuscrito para uma película. (…) Para mim, rodar um filme representa dias de trabalho árduo, dores musculares, os olhos cheios de poeira, odores sombrios, suor e lâmpadas, uma série indefinida de tensões e de esperas, um combate sem fim entre a vontade e o dever, entre a visão e o real, a consciência e a preguiça. Penso nos dias a acordar cedo, nas noites sem dormir, num sentimento mais agudo do que a própria vida, uma espécie de fanatismo centrado unicamente no trabalho, através do qual torno-me eu próprio, finalmente, uma parte integrante da película, um aparelho ridiculamente minúsculo cujo único defeito é necessitar de comida e bebida.

(…) Qual é o meu objectivo?

Perguntam-me algumas vezes o que é que eu procuro com os meus filmes, qual é o meu objectivo. A questão é difícil e perigosa, e tenho o hábito de responder-lhe com uma mentira ou uma escapatória: ‘Procuro dizer a verdade sobre a condição dos homens, a verdade como eu a vejo.’ Esta resposta satisfaz as pessoas, e pergunto-me frequentemente como não há ninguém que repare no meu bluff, porque a resposta verdadeira deveria ser: ‘Eu sinto uma necessidade incoercível de exprimir através do filme aquilo que, de uma forma subjectiva, forma alguma parte da minha consciência. Nesse caso, não tenho outro objectivo senão eu mesmo, o meu pão de cada
dia, a diversão e estima do público, uma espécie de verdade que eu sinto naquele momento. E se tento resumir a minha segunda resposta, a fórmula final não tem nada de muito entusiasmante: uma actividade sem grande significado.”

Eu não diria que esta conclusão me preocupe particularmente. Estou na mesma situação que a maioria dos artistas da minha geração: a nossa actividade, a de todos, não tem grande sentido.
A arte pela arte. A minha verdade pessoal ou uma meia-verdade ou mesmo sem a mínima verdade, excepto que tem valor para mim.
Eu sei que esta maneira de ver as coisas não é muito popular, sobretudo hoje em dia. Apressar- -me-ei então a defender a minha posição ao colocar a questão de uma outra forma: “O que é que gostariam de ter como objectivo
ao fazerem os vossos filmes?”

Ingmar Bergman

Excertos de Qu’est-ce que ‘faire des films’?,
texto publicado na edição no 51 dos Cahiers du Cinéma, em Julho de 1956 

Preçário

€4
€3 [< 25, Estudante, > 65, Grupo ≥ 10, Desempregado, Parcerias]
€12 [4 filmes // Ciclo Bergman Inesgotável]
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