LUZ DE INVERNO

Seg 12 Out 2015 | 21:30 | AUditório
BERGMAN INESGOTÁVEL > CINEMA À SEGUNDA

Sinopse

O padre de uma pequena cidade cumpre as suas tarefas mecanicamente perante uma congregação diminuta. Após a missa, tenta consolar o pescador Persson, torturado pela ansiedade, mas o padre percebe que não tem nada para oferecer para além da sua própria incerteza.

Luz de Inverno integra a chamada Trilogia da Fé, da autoria do realizador sueco. Neste filme, Bergman explora as personagens e a sua relação com Deus. É protagonizado por Ingrid Thulin e Gunnar Björnstrand, dois dos atores mais populares na Suécia e colaboradores habituais do realizador.

Ficha Técnica

Realização e Argumento Ingmar Bergman

Com Gunnar Björnstrand, Ingrid Thulin e Max Von Sydow

Ano 1963

Título Original Nattvardsgästerna

País Suécia

Data de estreia em Portugal 25 de junho de 2015 (versão restaurada)

Parceria Leopardo Filmes

Festivais e Prémios

National Board of Review, E.U.A, 1963 – Melhor Filme Estrangeiro

Informações Adicionais

Excertos de um diário escrito pelo realizador sueco Vilgot Sjöman, realizador de Sou Curiosa e Continuo a Ser Curiosa, enquanto trabalhou como assistente de realização de Ingmar Bergman em Luz de Inverno.

“Quarta-feira, 14 de Junho de 1961

Bergman comunica-me o tema geral do seu novo filme: sentimento de inveja para com Cristo.

Bergman: No início teremos um pároco que se fecha na sua igreja e diz a Deus: ‘Decidi que irei aguardar aqui até que decidas aparecer-me. Podes demorar o tempo que quiseres. De qualquer forma, não partirei daqui sem que me tenhas aparecido.’

E o padre aguarda, dia após dia, semana após semana. Este seria o ponto de partida do meu filme. Depois, acordei uma manhã, como quem acorda
de um sonho e senti que a espera do pároco não teria de demorar tanto tempo como tinha pensado inicialmente: poder-se-ia passar tanta coisa numa hora e meia, a duração do filme. Vou então começar pela descrição de uma paróquia onde participam apenas seis comungantes, sendo um deles a mulher do pároco. Após o sermão, o pároco fica à espera
na igreja: aguarda um homem que virá a uma hora combinada. O homem não aparece. O pároco começa a ficar impaciente e a enervar-se, mas o homem não virá porque se enforcou.
Bergman pretende descrever o vazio, a inactividade, o lado mortal e rotineiro da paróquia. Pergunto-lhe como quer mostrar isto.

Bergman: Basta ir a uma pequena igreja de província e descrever tudo o que lá se passa. Eu visitei algumas nos últimos domingos. (…) Compreenda, o meu pároco sente algum ódio face a Cristo, ódio que não admite a ninguém. Ele inveja Cristo, tem ciúmes dele. Sente um sentimento semelhante ao ciúme sentido pelo filho que fica em casa enquanto o filho pródigo, desde o seu regresso, monopoliza todas as atenções. Acabo simplesmente de descobrir que preciso de confessar o ciúme que eu mesmo sinto para com Cristo… quando acabar o meu guião, vou dar-lho para que o leia e o critique. Eu quero ouvir as críticas. (Pausa) Mas evite criticar de forma a que perca a

fé neste filme e ganhe medo a fazê-lo… o que os críticos dizem de mim enquanto realizador não me

afecta de maneira nenhuma, mas quando falam de mim enquanto autor, aí sim, torno-me numa alma atormentada.”

Luz de Inverno é o segundo ‘painel’ da trilogia realizada por Bergman entre 1961 e 1963 e a que o Realizador deu por título O Silêncio de Deus. Sucedeu a Em Busca da Verdade de 1961 e antecedeu O Silêncio de 1963. Mas, em Luz de Inverno, Bergman levou a depuração ao ponto mais extremo e raras vezes – senão nunca – na sua obra nos vimos confrontados com uma nudez assim. Nudez das duas igrejas – uma diurna, outra nocturna – que praticamente constituem o único décor do filme (…), nudez dos rostos dos protagonistas, caracterizados por forma a reforçar-lhe os traços e jamais a adoçá- -los. Nudez da ‘mise-en-scène’ (é o filme de Bergman em que o seu reinado é mais absoluto), nudez da banda sonora, onde o Bach de Em Busca da Verdade e de O Silêncio dá lugar à total ausência de música, apenas interrompida pelos hinos religiosos tocados pelo organista durante os Serviços.

Esse efeito de nudez é logo abissal no primeiro plano, quando, diante de nós, emerge em plano americano (rara figura na gramática bergmaniana) Gunnar Björnstrand paramentado, olhando-nos fortemente e pronunciando as palavras ‘Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído’. Só depois (plano da Igreja e planos dos sete ‘comungantes’ percebemos que estamos numa cerimónia religiosa e que Björnstrand conclui a sua prática. Esse longo e vertical plano dele é a primeira surpresa do filme, e primeira interpelação que do filme nos vem.”

João Bénard da Costa, As Folhas da Cinemateca – Ingmar Bergman, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema 

Duração do Espectáculo

1H20

Faixa Etária

M/12

Preçário

€4
€3 [< 25, Estudante, > 65, Grupo ≥ 10, Desempregado, Parcerias]
€12 [4 filmes // Ciclo Bergman Inesgotável]
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